20 de ago de 2009

Dia do artista de Teatro

Foi ontem, dia 19 de agosto. Mas estou postando hoje, pelo motivo de sempre. Falta, muita falta, de tempo. Mas o dia exato não importa, o que mais vale é não nos esquecermos da importância desta data: dia do artista de teatro.

O dia é dedicado aos atores, aos produtores, aos diretores, aos dramaturgos, aos sonoplastas e iluminadores. Enfim, a todos que dedicam suas vidas, suas almas, seus corpos, seus suspiros, suas mentes, sua semana, seus fins de semanas ou "somente" algumas horas à mágica vida teatral.

Não imagino como ocorre a tal "mágica" do teatro. O que sei é que quando se fecha o nosso portãozinho azul, o resto do mundo some. Sem demagogias: o teatro transforma.

Mas, será que realmente merecemos um dia dedicado a nós, artistas teatrais?

Pois nós, que, constantemente, ouvimos, ou simplesmente sentimos, opiniões tão adversas à nossa arte, merecemos este e os outros 364 dias do ano, por, ainda assim, persistirmos amando o que fazemos e fazendo o que amamos. Afinal, o mundo, às vezes, nos olha como se fosse tarefa fácil ou de pouco mérito apresentar-se para dezenas ou centenas de pessoas desconhecidas, com olhares críticos e almas sedentas. Como se a responsabilidade, a força de vontade e a superação constante de nossos próprios desafios não fossem os ingredientes elementares para um artista de teatro. Como se o fato de se fazer teatro apenas aos finais de semana significasse que o teatro é, para nós, apenas um hobbie, algo com a importância questionável. Como se apenas porque não temos vontade, ou coragem, de sair correndo para uma cidade grande para tentar viver da nossa arte, significasse que não a amamos realmente.

Mas há também os que nos enxergam como heróis, apenas por termos um sonho e não desistirmos deles. É a esses que dedico meu teatro, meu tempo, meu esforço, meus ensaios e minhas pesquisas. Reproduzindo aqui a dedicatória da minha monografia:
A todas as pessoas nas quais vive o estranho e inexplicável amor pelo
teatro.

O Mercador de Veneza

Plenitudianos e afins, o dia 20 de agosto chegou.

Após cerca de dois meses de trabalho denso, de grande trabalho corporal, de entrega total a um processo novo de montagem, de expectativas imensas, chega a hora de mostrar isso a todos. A Cultura de Quinta (MilkShakespeare) O mercador de Veneza será apresentada hoje. Às 21 horas no Teatro Municipal de Batatais.

Tudo, comçando com o nosso primeiro exercício sobre O Mercador de Veneza, aquele em que precisávamos debater qual sentimento nos era mais caro: amor, poder ou religião, passando pela feitura de nossas máscaras, a gostosa "sujeira no rosto", a papelagem e o processo de desisão das cores, pela o descoberta do texto e o seu entendimento juntamente com marcação até o conhecimento do caráter, da personalidade e da alma cada personagens, incluindo seus segredos, fez com que esse processo fosse deliciosamente intenso e, tenho certeza, bem aproveitado. Resta-nos, apenas, o que não significa que seja pouco, colocar tudo em prática hoje. Viver tudo isso mais uma vez, mas, agora, aos olhos de uma plateia ávida por cultura, por arte. Daqui a pouco.


Então é isso. Hoje, Amor, Poder e Religião disputarão seu lugar no palco.

Merda aos plenitudianos!

7 de ago de 2009

Chapeuzinho - Versão 1

A versão que dará início a essa série de postagens é a primeira adaptação, ao menos foi o que pude encontrar até onde meus parcos estudos me levaram, de Chapeuzinho Vermelha, escrita por Charles Perraut, incluída em 1695 num manuscrito intitulado “Contes de ma mère Loye” e publicada, em 1697, em “Contes et histoires du temps passé, Avec des moralités”.


(Ao lado, foto de Charles Perrault)

O Capuchinho Vermelho – versão de Charles Perrault

Era uma vez uma jovem aldeã, a mais bonita que fosse dado ver; a sua mãe era louca por ela e a avó mais ainda. Esta boa mulher mandou fazer-lhe um capucho vermelho, que lhe ficava tão bem que em todo o lado lhe chamavam Capuchinho Vermelho.
Um dia a mãe, tendo cozido pão e feito bôlas, disse-lhe: «Vai ver como está a tua avó, porque me disseram que está doente; leva-lhe uma bôla e este potinho de manteiga».
Capuchinho Vermelho partiu imediatamente para a casa da avó, que morava numa outra aldeia. Ao passar num bosque encontrou o compadre Lobo, que tinha muita vontade de comê-la, mas não se atrevia a tal por causa de alguns lenhadores que estavam na floresta. Perguntou-lhe aonde ela ia; a pobre criança, que não sabia que é perigoso deter-se para escutar um Lobo, disse-lhe:
«Vou ver a minha avó e levar-lhe uma bôla com um potinho de manteiga que a minha mãe lhe manda».
«Ela mora muito longe?» perguntou o lobo. «Ó! Sim», disse Capuchinho Vermelho, «é para lá do moinho que vê lá mesmo ao fundo, ao fundo, na primeira casa da aldeia». «Pois bem», disse o Lobo, «eu também quero ir vê-la; vou por este caminho e tu vai por aquele, a ver quem chega lá primeiro».
O Lobo desatou a correr com toda a força pelo caminho mais curto e a jovem foi pelo caminho mais longo, entretendo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer ramos com as florezinhas que encontrava.
O Lobo não demorou muito a chegar a casa da avó; bate à porta: Toc, toc. «Quem está aí?» «É a sua pequena, Capuchinho Vermelho», disse o Lobo disfarçando a voz, «que lhe traz uma bôla e um potinho de manteiga que a minha mãe lhe manda».
A boa avó, que estava de cama por se achar adoentada, gritou-lhe: «Puxa a cavilha, que o trinco cairá».
O Lobo puxou a cavilha e a porta abriu-se. Ele atirou-se à velhinha e comeu-a em menos de nada; porque há três dias que não comia. Depois fechou a porta e foi-se deitar na cama da avó, à espera de Capuchinho Vermelho, que algum tempo depois veio bater à porta. Toc, toc. «Quem está aí?»
Capuchinho Vermelho, que ouviu a voz grossa do Lobo, primeiro teve medo, mas pensando que a avó estivesse constipada, respondeu: «É a sua pequena, Capuchinho Vermelho, que lhe traz uma bôla e um potinho de manteiga que a minha mãe lhe manda».
O Lobo gritou-lhe, adoçando um pouco a voz: «Puxa a cavilha, que o trinco cairá». Capuchinho Vermelho puxou a cavilha e a porta abriu-se. O Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe enquanto se escondia sob a colcha: «Põe a bôla e o potinho de manteiga em cima da masseira e vem deitar-te comigo». Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe:
«Avó, que grandes braços tem!»
«É para melhor te abraçar, minha filha.»
«Avó, que grandes pernas tem!»
«É para correr melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes orelhas tem!»
«É para escutar melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes olhos tem!»
«É para ver melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes dentes tem!»
«É para te comer.»
E, ao dizer estas palavras, o Lobo malvado atirou-se sobre Capuchinho Vermelho e comeu-a.

Moralidade
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos.

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Notaram que o conto possui final trágico? Isso porque ele, originalmente, não tinha a pretensão de ser um "conto de fadas" ou uma "história maravilhosa", ao contrário, foi criado para que os aldeões ensinassem suas filhas virgens a não conversar com estranhos, pretendendo educar pelo medo da morte.

Chapeuzinho Vermelho

Plenitudianos e afins, hey!
Como estão?
A atualização do blog demorou para chegar mais uma vez, eu sei. Ai, ai. Às vezes penso que eu deveria ter inspirações mais constantes, e mais, que cada pensamento meu deveria ser mais proeminentes (figurativamente falando). Mas ainda não são. Ai, ai.

Pessoal, olha só, já que a nossa primeira grande apresentação do ano será Chapeuzinho Vermelho, uma versão de Maria Clara Machado, achei que seria interessante conhecermos, também, algumas outras versões existentes, uma vez que cada uma guarda suas singularidades, para que possamos analisar, depois, as semelhanças e diferenças entre elas, a fim de que, assim, cheguemos a um maior entendimento da peça num todo, bem como de cada personagem individualmente.



Para que isso ocorra, no entanto, ando à caça de versões e mais versões de Chapeuzinho Vermelho. Conforme eu for achando as versões, vou postando-as no aqui no blog. Mas, como são textos um pouco extensos, postarei um em cada novo "post", para que nossos posts não se tornem compridos demais.
Aaah, claro! Caso alguém conheça alguma que não esteja aqui, avise-me que eu posto num piscar de olhos ("Plim!", desse jeitinho), tá?
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