8 de jan de 2010

Inventando histórias

“tenho medo de altura, mas não evito meus abismos. São eles que me dão a dimensão do que sou.” (M. de Queiroz)
Um chuvisqueiro, que ameaçava se transformar num temporal, molhava a minha blusa cinza, minha nova blusa cinza. O chuvisco aumentou e eu corri para me esconder. Depois de escondida das gotas que deixavam o meu cinza quase preto, fiquei parada, inerte, olhando a chuva. Olhando a correria dos que, não sendo tão acautelados quanto eu, ainda não tinham se escondido.
Ouvi um balbucio, uma voz que me soou fraca, fina. Não dei atenção. Olhar a correria alheia me roubava os pensamentos naquele instante.
“Hein? Você gosta de fazer teatro?” Perguntava-me, com transparente indignação, uma garotinha gorducha, de grandes cabelos loiros e muito lisos.
“O quê?”, respondi, ainda meio distraída, pensando nos problemas que não me pertenciam.
“Teatro, eu falei! Eu te vi lá. Então, quero saber se você gosta de fazer teatro?”, tenta explicar a pequena, com a pressa peculiar de uma criança curiosa que espera ouvir uma resposta e, logo, sair correndo para brincar, sem dar qualquer atenção ao que ouviu. Pensando nisso, respondi sem hesitar muito: “Ah... você me viu no teatro?! Poxa, que legal! E você gostou da peça?”.
“Você gosta? Tô perguntando por que é que você faz teatro. Quero saber se você gosta de ficar no palco. Você gosta?”. Após perceber a insistência dela, e seus olhos grandes me olhando, como se me vissem por dentro, começo a levar a minha interlocutora mais a sério.
Paro. Penso. Naquele instante, senti como se eu estivesse num despenhadeiro, pronta a me jogar; pronta a me decidir; pronta a encontrar desculpas para pular, e, então, a menininha, aquela menininha, me puxa pela mão. Repentinamente, me puxa. Perguntou-me se vale a pena, se eu gosto, se é bom, se ela deveria fazer o mesmo que eu. Esta última indagação me faz gelar.
Senti, na mesma, na exata hora, uma vontade descontrolada de me abaixar, olhar bem no fundo dos olhos dela e responder: “O Teatro? Ele é toda a minha vida! Eu te juro.”. Mas eu, prestes a pular de um precipício, como poderia dizer isso com a sinceridade que ela merecia? Como eu poderia fazer isso se, ao olhá-la, lembrei-me de mim mesma, ainda pequena, sonhando com o meu futuro? Foi aí que eu percebi: meu futuro já chegou e eu ainda nem tinha me dado conta disso; eu continuo sonhando... como se fosse uma criança gorducha, com longos fios loiros e com olhos grandes e curiosos.
Começou a chover um pouco mais forte, fui embora correndo. Eu, que costumava fugir de mim, naquele momento resolvi fugir para ficar sozinha comigo. Minha blusa, a cinza, já estava encharcada, quase preta, pesava. Livrei-me dela. Minha nudez deixava-me confortável para ser eu mesma, correndo na chuva, sozinha, com a coragem de me encontrar.

2 comentários:

  1. Lindo este seu post. Maravilhoso e profundo...baseado em que ein? Será que pode esclarecer para todos nós??? Beijos a todos Plenitudianos.

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  2. Hahaha, coisas que, de repente, passam pela cabeça e sinto vontade de registrar! Mas, como diz o título: "INVENTANDO histórias". Só inventando, graças a Deus. Amém. :p
    Mas que bom que gostou!
    Beijo, Fer

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